O processo de elaboração e exceção de uma escultura segue etapas distintas. Primeiramente é necessário estudar movimentos e volumes da imagem em desenhos diversos afim de uma solução equilibrada. Após solucionar esta questão, torna-se necessário um estudo em desenho em escala natural ao tamanho da escultura:

Em alguns casos faz-se necessário a construção de uma maquete para a montagem do bloco escultórico.

O bloco escultórico é a matriz volumétrica principal que dará origem à escultura. Ele é montado a partir de pranchas de madeira seca aparelhadas e cortadas adequadamente que são coladas com cola especial e prensadas. Abaixo um exemplo de bloco escultórico conforme maquete.

A próxima etapa consiste em um esboço volumétrico das formas principais da escultura. Essa etapa é feita com uma serra elétrica.

Neste ínterim da-se início à talha, de volta ao trabalho manual onde  formões e goivas fazem sua vez ao lavrar a madeira

A cabeça exige um estudo a parte, o que proporciona melhores resultados. Após finalizar a talha e inserir a cabeça, a escultura está pronta para receber o acabamento final com árduo trabalho de raspadores e lixas de variadas numerações afim de preparar a imagem para receber a pintura.

Todo trabalho de pintura ou policromia das obras são feitos conforme tradição setecentista, com materiais orgânicos que dialogam com a madeira. Técnica aprovada e comprovada pelos séculos e resgatada ao longo de 16 anos de pesquisas, estudos e experiências práticas. Após a madeira ser lixada, recebe várias demãos de gesso especial, para cobrir a porosidade da madeira e permitir uma superfície lisa e homogênea. Nas partes que serão douradas com folha de ouro, aplica-se camadas de bolo armênio para “acamar” o ouro que posteriormente é brunido com ágata para reluzir seu brilho peculiar:

O esgrafiado tenta imitar os tecidos com fios de ouro em sua trama formando desenhos diversos. Para tal, pinta-se por cima do ouro e com um palito pontiagudo raspa-se a tinta formando assim os desenhos e motivos diversos:

Os endereços dos ateliês por onde passou Carlos Calsavara são bem mais do que pontos no mapa. São símbolos de sua própria trajetória criativa e laços genuínos com suas origens pessoais e escultóricas em São João del-Rei.

Durante mais de uma década, o artista atuou em um imóvel na Colônia do Marçal, onde nasceu, cresceu e aprendeu a analisar a natureza como uma fonte intrigante de fenômenos, calma e inspiração. Não por outro motivo, a sombra de uma laranjeira, no quintal de casa, foi seu espaço de produção a princípio.

Em plena Semana Santa de 2017, no entanto, Calsavara migrou para o Centro Histórico da terra natal, velho conhecido de suas incursões por eventos religiosos na companhia dos pais. Foi ali também que, ainda criança, se encantou pelas imagens religiosas que emocionavam fiéis. Algo que descreve como a primeira experiência artística da vida e quer reviver, sob os olhos do público, abrindo as portas de seu ateliê.

Interação

Na tradição cristã, conta-se que Tomé, um dos discípulos de Jesus, dizia só acreditar em sua ressurreição se pudesse vê-lo. Daí a expressão “ver para crer”. No caso da arte, ver é um dos vários pontos de partida para sentir.

E é nisso que Carlos Calsavara tenta apostar tanto em suas obras Sacras quanto nas Esculturas Contemporâneas. Hoje, no entanto, quer oferecer mais do que trabalhos prontos ao público. Daí transformar seu ateliê em um espaço gratuito de visitação em uma área são-joanense com efervescência cultural, histórica, arquitetônica, turística e religiosa.

No local, além da exposição de obras já finalizadas, será possível acompanhar a atuação do são-joanense enquanto extrai, da madeira, da cerâmica ou de outros materiais, uma nova peça. O objetivo de Calsavara é mostrar detalhes da atividade escultórica, ao mesmo tempo em que interage com o público e promove uma nova vivência artística aos visitantes.

Onde está

O ateliê de Carlos Calsavara fica à Rua Getúlio Vargas, n°227, em um casarão clássico entre a Igreja de Nossa Senhora do Carmo e a Basílica de Nossa Senhora do Pilar. Além disso, se localiza a 350 metros da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde está um de seus trabalhos: uma escultura da Virgem em madeira dourada e policromada, alcançando 193cm.

É em meio a esse cenário, então, que faz diariamente suas experiências criativas. Aliás, aspirante a cientista na infância, Calsavara de alguma forma montou seu “laboratório” na vida adulta. Um canto onde lê, pesquisa, faz anotações, esboça os primeiros riscos, confecciona formas, lapida fontes, humaniza traços. Em outras palavras: um espaço onde a arte sai do mundo das ideias e é vivificada no universo real.

Trata-se de um recinto semelhante a outros que visitou na vida, aprendendo lições importantes e convivendo com escultores cheios de paixão pelo que faziam. Mas com identidade e aura próprias em um mosaico que dá ao local de reflexão e trabalho uma configuração que ultrapassa a linha estética e se torna funcional.

Estrutura

O interessado em conhecer o passo-a-passo do trabalho escultórico só precisa de um telefonema ou email para agendar a visita ao ateliê.

No local, em dois ambientes distintos, Calsavara distribuiu peças e fotos de Arte Sacra e da coleção Memória Líquida. Quase um convite instigante à possibilidade de decifrar a criação delas na oficina em si, separada por um pequeno corredor.

Ali, croquis pendurados, fotos, livros e várias outras fontes de trabalho despontam, misturando-se às ferramentas e matérias-primas cuidadosamente espalhadas, formando o que o escultor chama de “refúgio criativo” – além de um ambiente sagrado de descobertas. “É comum que o trabalho termine alheio ao que esperei. Por vezes, isso acontece inconscientemente. Daí ser algo extasiante e intrigante. Afinal, através desse fluir, você desbrava caminhos, encontra possibilidades a explorar”, diz.