Memória Líquida

A tradição possui suas belas metamorfoses e ressurge ali onde não se espera. A tabula rasa é um mito, enérgico, que alimentou a ilusão de tantas vanguardas. Mito, porque o passado, de um modo ou de outro, está sempre presente em qualquer ruptura. “Voltemos ao antigo e faremos coisa nova” ensinou um grande gênio da música. É exatamente este o caso do escultor Carlos Calsavara.

Seu ofício é sólido, fruto de muita excelente prática. Sua arte não é feita de receitas ou fórmulas, mas de inspiração caprichosa e original, que remonta aos magníficos exercícios da talha que ornaram altares, retábulos e relicários nas igrejas de Minas Gerais do século XVIII.

Essa arte do século XVIII, fluida, irrequieta, em suas reviravoltas e rocalhas, em seus requintes plásticos tão sutis,  renasce sob as mãos de Carlos Calsavara, vinculada agora à beleza da água que corre, escorre e espirra.

O escultor faz surgir, ao mesmo tempo, metáfora visual, identidade e paradoxo. Metáfora da agitação aquática que se reconhece livre; identidade com os fluxos líquidos, tão inspiradores; paradoxo pelo líquido que cristaliza seu fluxo – como nos velhos tempos da talha nas igrejas, pura fantasia em movimento imobilizado.

Estava em jogo nas antigas igrejas o que poderia ser chamado de busca pela qualidade decorativa – desde que tomemos esta palavra sem nenhum de seus aspectos pejorativos que se costumou associar a ela – por meio da inquietação do estilo realizado numa dança de pulsões elegantes.

Com Carlos Calsavara, com suas garrafas e torneiras que versam a mais alta qualidade artística, estamos plenamente fora de qualquer suspeita decorativa. Graças a ele, entramos no mistério de uma poesia visual originada no quotidiano e adentrando pelo domínio de um talento inspirado, de uma sensibilidade sutil capaz nos introduzir nos mistérios da arte mais autêntica.

São objetos inventivos e preciosos, portadores de secreta beleza poética. São objetos confidenciais, num espírito profundo e mineiro. São objetos necessários, num mundo em que a ostentação e a vulgaridade imperam.
Jorge Coli