A citação de Bauman descreve bem uma epifania de Carlos Calsavara, em 2007, ao analisar sua arte. Naquele ano, pulsou a vontade de ver seu trabalho escultórico destilando novas formas, fluindo em criatividade, se inundando de outras inspirações, transbordando liberdade plástica e poética ao visitar espaços artísticos fora do universo religioso.

Foi daí que surgiu o Memória Líquida. Hoje, mais do que um desafio artístico iniciado há cerca de uma década, ele é uma vertente de expressão. E se consolidou como uma manifestação unificando materiais, filosofias, experiências, técnicas e conceitos por vezes definidos como opostos.

Nesse trabalho, o dinamismo dos fluidos se manifesta na cristalização dos suportes escultóricos. E o faz convergindo, por sua vez, a modernidade dos materiais com o barroco das formas.

Tudo isso sob o prisma da sobreposição entre consciente e inconsciente. Um sendo latente no desejo de Carlos Calsavara em encontrar liberdade criativa. O outro se apresentando em memórias de infância do escultor, trazidas à tona durante as primeiras experimentações.

Uma delas, latente, é representada no fascínio de Calsavara pela água, seu movimento, sua fluidez. Algo observado de perto pelo escultor, ainda menino, enquanto brincava e descobria o cenário ao seu redor.

E é isso que ele tenta imprimir em trabalhos tridimensionais que, aos poucos e de forma surpreendente, passaram a exibir características da vertente sacra, voltando a ela em pormenores como rocalhas e espirais que, aqui, ganham forma em cerâmica e resina.

Não por outro motivo, Calsavara descreve o Memória Líquida como um trabalho com “fortes características autobiográficas e regionalistas”, no qual as “obras se sobressaem acima de tudo pelo conteúdo estético que envolve e seduz o observador”.

 

 

Ao realizar estudos para uma escultura em pedra, a mesma água que fascinava Carlos Calsavara na infância o hipnotizou no papel. Enquanto rascunhava um peixe para uma composição, imaginou o elemento fluido como base para sustentar o animal e, ainda, como detalhe saindo de sua boca. No esboço inicial, a água não passava de vários traços de uma esferográfica. Na mente do escultor, era um desafio: explorar aquela plasticidade aquática em obras estáticas.

Seguiu-se, então, um trabalho quase arqueológico em busca de referências que transitaram entre fotografias diversas e esboços atribuídos a Leonardo Da Vinci. Tudo materializado mais tarde em cerâmica. Algo que, segundo Calsavara, interage “com os quatro elementos da natureza (terra, ar, água e fogo)” e, ainda, “melhor evidencia o fenômeno de solidificação em seu processo”.

Tais observações foram apresentadas no Trabalho de Conclusão de Curso do artista enquanto graduando em Artes Aplicadas pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e foram fonte para evoluções posteriores em matéria-prima, design e acabamento. Tudo isso a partir de estudos que seguem acontecendo e culminando em desdobramentos artísticos. Um deles no próprio conceito do Memória Líquida, cujos processos criativos se tornaram cada vez mais fluidos, percorrendo caminhos que, por vezes, lhes parecem ser próprios.

A tradição possui suas belas metamorfoses e ressurge ali onde não se espera. A tabula rasa é um mito, enérgico, que alimentou a ilusão de tantas vanguardas. Mito, porque o passado, de um modo ou de outro, está sempre presente em qualquer ruptura. “Voltemos ao antigo e faremos coisa nova” ensinou um grande gênio da música. É exatamente este o caso do escultor Carlos Calsavara.

Seu ofício é sólido, fruto de muita excelente prática. Sua arte não é feita de receitas ou fórmulas, mas de inspiração caprichosa e original, que remonta aos magníficos exercícios da talha que ornaram altares, retábulos e relicários nas igrejas de Minas Gerais do século XVIII.

Essa arte do século XVIII, fluida, irrequieta, em suas reviravoltas e rocalhas, em seus requintes plásticos tão sutis,  renasce sob as mãos de Carlos Calsavara, vinculada agora à beleza da água que corre, escorre e espirra.

O escultor faz surgir, ao mesmo tempo, metáfora visual, identidade e paradoxo. Metáfora da agitação aquática que se reconhece livre; identidade com os fluxos líquidos, tão inspiradores; paradoxo pelo líquido que cristaliza seu fluxo – como nos velhos tempos da talha nas igrejas, pura fantasia em movimento imobilizado.

Estava em jogo nas antigas igrejas o que poderia ser chamado de busca pela qualidade decorativa – desde que tomemos esta palavra sem nenhum de seus aspectos pejorativos que se costumou associar a ela – por meio da inquietação do estilo realizado numa dança de pulsões elegantes.

Com Carlos Calsavara, com suas garrafas e torneiras que versam a mais alta qualidade artística, estamos plenamente fora de qualquer suspeita decorativa. Graças a ele, entramos no mistério de uma poesia visual originada no quotidiano e adentrando pelo domínio de um talento inspirado, de uma sensibilidade sutil capaz nos introduzir nos mistérios da arte mais autêntica.

São objetos inventivos e preciosos, portadores de secreta beleza poética. São objetos confidenciais, num espírito profundo e mineiro. São objetos necessários, num mundo em que a ostentação e a vulgaridade imperam.

Jorge Coli