Na mesma Colônia do Marçal em que passava manhãs e tardes explorando as formas da natureza, observando o curso das águas e ouvindo o vento, Carlos Calsavara cruzava as noites dormindo tranquilo com uma imagem do Menino Jesus de Praga.

Talvez por algum motivo que só Freud explique, a arte sacra que o tranquilizava na infância é hoje uma das vertentes de seu trabalho. Começou com uma imagem de São Judas Tadeu com aproximadamente 60cm em 1997. Pouco depois, em 2001, a capacidade de esculpir se multiplicou e se manifestou em um São Francisco de Assis com 1,70m e pesando 900kg. Da Cidade Onde Os Sinos Falam – e com nome de santo – a obra foi levada para o Vale do Jequitinhonha.

Ficaram a curiosidade, a coragem, as análises minuciosas e os estudos autodidatas de Carlos Calsavara, que já naquela época tentava alcançar o mesmo resultado que imprime em suas obras hoje: de forte conexão entre imagens e traços humanos, dando às obras aspectos minuciosos próximos aos naturais.

Assim, acredita, é possível estabelecer uma “ponte entre o campo físico e o espiritual através do deslumbramento estético”. Tudo isso lançando mão, também, daquilo que o norteia mesmo inconscientemente: a força da memória. Para o artista, a interpretação de uma imagem é baseada em experiências pessoais e singulares que, despertadas por algum detalhe visual ou sensorial, levam a grandes atividades reflexivas.

Toda e qualquer obra, portanto, pode conter símbolos de cargas ancestrais individuais ou coletivas. Por isso, sua conclusão se dá aos olhos de quem a vê. E nesse momento é finalizada efetivamente.

Coincidentemente, uma das manifestações mais intensas desse fenômeno se deu frente a uma representação de Santa Luzia, Padroeira dos Olhos na tradição católica. A obra foi encomendada a Calsavara em meados dos anos 2000 por um desembargador carioca. Na época, o devoto da religiosa era recém-chegado de uma viagem a Santiago de Compostela onde, em um dos trechos, se encantou por uma imagem da cristã martirizada no século IV. Ao desembarcar em São João del-Rei, contou tudo isso ao escultor e revelou o desejo de ter uma imagem como aquela consigo.
Meses depois, se emocionou com o que recebeu. E permitiu que o sentimento fosse dividido com outros fiéis em uma exposição na Semana Santa são-joanense. Durante o evento, Calsavara recebeu outro pedido especial: esculpir uma representação de Nossa Senhora das Mercês, com 1,86m, para o altar da igreja de mesmo nome na cidade.

Um salto em dimensões e em técnicas estudadas com afinco ao longo dos anos. Na realidade, da pedra-sabão dos primeiros tempos Calsavara chegou à madeira em 2004, quando aprimorou o talhe e começou a desenvolver uma série com oito obras sacras com essa matéria-prima crua. Finalizado o conjunto, acabou exposto em Tiradentes e recebendo mais de mil visitas em apenas quatro dias durante a Semana Santa.

Epifanias e aperfeiçoamentos também aconteceram nas técnicas de criação. Aspirante a cientista quando criança, Calsavara descobriu desde cedo que alquimia e metamorfoses aconteciam a todo tempo e em todo lugar. Na arte, aliás, essa possibilidade faz parte de suas convicções e se materializa em aspectos humanizados, fisionomias e nuances de linguagem corporal livremente inspirados em pessoas com quem convive ou encontra no cotidiano. Tudo isso bebendo da fonte, também, na dramatização do cinema, do teatro, da dança contemporânea.

 

Curioso, persistente e autodidata, Calsavara aprendeu com observações próprias e teimosia desde os primeiros cortes em pedra aos requintes de acabamento na madeira – descoberta como um aglomerado de fibras que, para cederem, precisam ter sequências pacientemente respeitadas.

Respeito, aliás, é palavra-chave na relação entre Calsavara e outros artistas nos quais se inspira e com os quais troca conhecimentos em ateliês ou cursos como o de Douramento e Policromia, de 2011. Ali, aprendeu técnicas com raízes no Antigo Egito e remontando a práticas dos tradicionais ateliês europeus ao longo dos séculos.

Assim, o milenar e o secular se encontram no presente em um trabalho de resgate técnico. A tudo isso se soma a estratégia da encarnação, construindo a pele das obras em camadas, a exemplo da formação biológica da cútis humana.

Cristo Ressuscitado

Escultura em madeira, dourada (ouro verdadeiro 22 quilates) policromada.
100 cm. 2017​

Nossa Senhora do Rosário

Madeira dourada (ouro 22) e policromada. 202 cm.
2015/2016.
Coleção Particular.
Mata Grande – Alagoas

Nossa Senhora do Rosário

Madeira dourada (ouro 22) e policromada (193cm).
2013/2014.
Pertencente à Igreja de Nossa Senhora do Rosário de São João del-Rei-MG

Nossa Senhora da Assunção

Madeira dourada (ouro 22) e policromada. 134cm.
2016.
Feita sob encomenda para a Catedral Metropolitana de São Paulo (Sé de São Paulo).

Nossa Senhora de Nazaré

Madeira policromada (50cm x 21cm x 21cm).
2015.
Baseada na imagem original do Círio de Nazaré de Belém do Pará.

Cristo Ressuscitado

Madeira (Cedro) e estanho. 2014
53 x 20 x 15cm

São Pedro Fourier

Madeira policromada (130cm).
2014.
Pertencente à Paróquia de São Pedro Fourier de São Paulo-SP

Nossa Senhora das Mercês

Madeira policromada – 1,86 m.
Janeiro de 2010.
Coleção Particular da Igreja de Nossa Senhora das Mercês, São João del-Rei – MG.

Nossa Senhora da Abadia

Madeira dourada (ouro 22) e policromada. 2017. Gurupi-TO. 
100 x 40 x35 cm

Cristo Crucificado

Carlos Calsavara – 2012
Escultura em madeira policromada – 67 x 55 cm

Nossa Senhora de Guadalupe

2012
Escultura em madeira, policromada (145cm x 68cm x 30cm).
Pertence à Paróquia de Nossa Senhora de Guadalupe.
Belo Horizonte-MG.

São Marcos Evangelista

2012
Escultura em madeira policromada (130cm x 65cm x 63cm).
Pertencente à Paróquia de São Marcos – Embu-SP.

Santa Luzia

2007
Madeira policromada (130cm).