Numa vitrine, localizada em avenida movimentada de São João del-Rei, uma imagem de Nossa Senhora do Rosário desacelerou alguns passos de quem passava pela calçada.

Com mais de 2 metros de altura, o simulacro em cedro representava a Virgem com Cristo, menino, em dos braços. No outro, contas de um terço entrelaçam seus dedos.

A santa, porém, não pertenceria àquele espaço por muito tempo. Em fevereiro de 2017, saiu de São João del-Rei com destino à cidade de Mata Grande, Alagoas, onde passou a ornamentar um altar.

Saiu da cidade de origem após 12 meses de trabalho no ateliê de Carlos Calsavara. Período somado a outros tantos de preparo paciente da madeira, em um repouso silencioso só quebrado com o primeiro corte de goivas ou ao manuseio minucioso de uma serra elétrica.

Antes de se manifestar no suporte escultórico, a arte é projetada, traduzindo as ideias do escultor, em croquis de papel ou arquivos digitais. No caso da vertente Sacra, o desenho desse esboço parte de referenciais variados, incluindo obras clássicas e barrocas dispostas em um acervo fotográfico no ateliê.

As primeiras marcadas por maior proximidade com o real, placidez nos semblantes, angelitude de expressões, suavidade em traços. Já no Barroco, a extravagância se expressa em curvas fortes, decoração luxuosa, proporções inventivas, rostos caricatos.

Para Calsavara, a madeira é mais do que matéria-prima. É um corpo com tendência ancestral de abrigar vida e, ainda, portadora de características moleculares próprias a serem respeitadas em todo o processo escultórico.

Daí a minúcia na escolha de exemplar desse suporte, que varia entre cedro, itaúba, umburana e outros.  Entre elas, composição, texturas, coeficiente de dilatação/retração e tonalidades são únicas, bem como o tempo necessário para que cada uma descanse e esteja, enfim, pronta para ser esculpida.

Tal como uma Esfinge a ser decifrada, a obra desafia o escultor. “A forma está ali dentro. É como um presente embrulhado em uma caixa. Na medida em que as coberturas saem, ele se torna visível. O mesmo vale para a arte. E por esse motivo, o início de toda peça é a fase mais desafiante e igualmente fascinante”, diz Calsavara.

Nesse momento, inspirações, referenciais, memórias pessoais e experiência artística se mesclam ao imprevisível e fazem com que a arte, muitas vezes, tome vida própria e se manifeste de forma diferente ao imaginado/projetado. É aí que, nas palavras do escultor, erros podem se tornar acertos – ou ao menos novos caminhos.

Entram em cena, então, as goivas ou a serra elétrica. Sob o comando de Calsavara, essas ferramentas deslizam sobre a madeira formando contornos e perfis. Anteriormente, cada peça passa por intervenção de marcenaria na confecção de faces em todos os seus lados, permitindo que sejam unidas, coladas e prensadas para alcançar dimensões variadas.

Começa-se, então, o chamado Esboço Volumétrico, processo conflituoso de delimitação de espaços e profundidades. Há, também, a inserção de detalhes em vestuário e acessórios, contornos faciais e corporais, semblantes, posturas. Lança-se mão, ainda, de lixas com várias gramaturas, refinando o trabalho.

Materiais minerais e orgânicos são os escolhidos para esta parte do processo, em que a arte ganha cor em cobertura multifacetada que dialoga com a madeira e caracteres importantes de sua identidade natural, incluindo o fato de se dilatar e retrair de acordo com a variação climática.

Compõem a lista de materiais essenciais a esse momento da arte itens como gesso crê, carbonato de cálcio e branco de espanha, substância hiperfina que se mistura a cola de coelho em composição que, aplicada em camadas, promove superfícies aprimoradas.

Folhas de ouro dão o tom do brilho e da sofisticação às obras. Seu efeito, no entanto, é assentado com a aplicação de ingredientes como o bolo armênio, uma argila hiperdecantada que recebe as folhas de ouro.

Segue-se, então, ao Brunimento. O ouro aplicado, a princípio fosco, torna-se vivaz, capaz inclusive de emitir reflexos. Detalhes como esgrafiados também podem ser acrescentados cobrindo- se o ouro com têmpera de gema de ovo e pigmento mineral e arranhando-se essa camada revelando o ouro através de desenhos diversos.

Bem como a própria pele humana, a textura de toda a estrutura que cobre as imagens se dá por camadas que, construídas uma a uma, ganham aspecto próximo do real. E assim, a exemplo do trabalho biológico célula a célula, as obras são revestidas por camadas transparentes de tinta a óleo e pigmentos variados de paletas de cores, conferindo o retoque final à identidade diferenciada de cada escultura.

No processo de Carnação, camadas claras e escuras dançam sobre a madeira em coreografia sem regras gerais ou ensaios prévios. Ali, o resultado se dá à observação, paciência e espera até o alcance do resultado ideal, de realismo convincente. Só então permite-se a finalização, com acréscimo de detalhes que vão de barbas a bochechas levemente coradas, além de traços marcantemente étnicos.

O selamento se dá com goma laca e uma cera especial de abelha e terebintina, impermeabilizando e protegendo a pintura.

O tempo, filosoficamente associado à sabedoria, é também um poderoso aliado no desenvolvimento escultórico. No interim de todo o processo em busca da alquimia perfeita, da simbologia e do deslumbramento estético, a obra se comunica com o escultor em reações da madeira, combinações de cores que pedem algum retoque, detalhes que pedem para ser incluídos ou epifanias do próprio escultor, que interage e intervém na própria criação.

Considerada pronta, ela parte para o destino, o local a que vai pertencer. E a partir dali ganha nova aura, novos sentidos, novas interpretações. O processo de criação, então, recomeça. Mas na esfera subjetiva. É assim que, de fato, a arte ganha vida – e se nega a terminar.